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Sei que você deve pensar que ninguém nunca te entendeu, mas você está enganado. Eu tinha idéia da grande pessoa que estava em minha frente nos tempos de escola. Além de ser o tal professor de gramática, para mim você também foi o amigo André. Sim, o que me chamou para conversar numa tarde de sábado porque sabia que eu tinha traços de depressão; o que me encourajou a levar a escrita mais a sério; o que me presenteou com um livro e uma dedicatória quando eu pensei não ter ninguém que se importasse; e, principalmente, o que me fez chorar de tanta dor quando partiu.
O conhecendo não só apenas como um mestre do ensino, sou uma das poucas que um dia entendeu o porquê do seu suicídio – e uma das muitas que nunca o superou. Saiba que até hoje o livro que ganhei está na minha cabeceira e teus conselhos, já aplicados, estão no sucesso de minha história de vida. É difícil pensar que quem me introduziu às sábias palavras de Bertold Brecht – “Todas as artes contribuem para a maior de todas as artes, a arte de viver” – tenha um dia desistido delas. Saiba que nunca te decepcionarei e irei até o fim com a sabedoria de Brecht, assim como você me pediu antes de partir.
Tudo de Blog quer saber: que professor foi especial para você?
Sem muito saber o porquê, assim como muitos adolescentes, passei a ter um sonho de ser intercambista. Não fazia muita questão do país, até porque sabia que dinheiro seria uma das bases da decisão, mas tinha certeza que não desistira fácil do meu novo sonho.
Começou com muita recusa, minha mãe disse um não convicto de primeira resposta, o que me fez a partir sozinha desde aquele momento. Fiz o teste de inglês, peguei todas as informações, e assim que soube que um inesperado dinheiro estava por vir coloquei as cartas na mesa: só dependia da resposta dela.
O conto de fadas começou, depois de papeladas e application fui uma das primeiras a receber família. O choque arrancou lágrimas: eu estava indo para uma fazenda. Meses de contato com a família americana antes da vinda me empolgaram e colocaram em meus olhos toda uma magia americana.
Ao chegar nos States vivi de descobertas. Assim como um pequeno bebê em seus primeiros passos e quedas desbravei novos ares, sons, estilo de vida, comidas, língua, animais, esportes... Era tanta novidade que dois meses voaram como um dia e tiveram histórias como um ano.
Porém, quando se coloca muita beleza no novo a parte feia se mostra com muita dor mais tarde. Quando a maratona da chegada passou me dei conta de que minha personalidade estava ausente, a família idealizada na verdade nem comigo falava, os amigos eram só de oi e tchau e, com os pés na realidade, eu estava doente vivendo em um pesadelo.
Sozinha, sem ninguém para telefonar, sem uma casa vizinha para ir correndo, vivi meses de ameaças, grosserias, rejeição e muitos, muitos desafios pessoais. Longe de seu país, de sua cultura e vida, não se há muito o que fazer senão se adaptar. Porém já era tarde. Me dei conta de que não tinha aceitado o diferente, tinha apenas mudado eu mesma para combinar com o local em que eu estava.
Tive aniversário de dezoito anos sem abraços, Natal sem família e carinho, dias de neve repletos de solidão, muito choro e rezas para tentar encontrar respostas.
Foi no sexto mês de intercâmbio que recebi um chacoalhão detonador: minha família americana inventou mentiras suficientes para fazer a agência de intercâmbio questionar meu caráter e decidir pela minha volta forçada ao Brasil. Como uma criança em sua primeira derrota, chorei deslizando pelas paredes do colégio, apertei meus olhos para acordar daquele velho sonho que tinha se tornado um pesadelo e não me sentir tão derrotada.
De malas prontas, há dias sozinha em um quarto, recebi um telefonema informando que uma alternativa tinha sido encontrada e que minha mudança seria realizada em dois dias. O choque foi tão grande que na minha segunda casa cheguei sem sorrisos ou lágrimas, apenas anestesiada por tudo que tinha acontecido.
Com uma segunda chance em minhas mãos, machucada por uma primeira má experiência, não fiz esforços para agradar, agi exatamente como o espontâneo comandou... E foi assim que fui premiada com uma encantadora experiência.
Bem recebida por vários alunos curiosos pela minha cultura, desbravei um novo Estados Unidos. Ao conhecer o lado bonito do país e da cultura, também conheci mais sobre a minha. Vi que todo aquele preconceito com este povo pode sim existir, mas aqui há também muito a nos surpreender, e mais, comprovei para mim mesma como aquilo que é nosso ‘normal’ pode na verdade ser um diferencial de nosso país.
Hoje sei como ser flexível, como aceitar o diferente sem ter que mudar minha personalidade e meus princípios, e o mais importante, sei como este mundo é imenso, se extendendo cada vez mais enquanto o desbravamos.
Se alguém me perguntar se faria intercâmbio denovo, diria jamais nas condições em que vim na primeira vez, mas com certeza se pudesse vir independente de uma host family. Minha vida no exterior construiu uma pessoa aperfeiçoada dentro de mim, que hoje está há um mês de voltar para casa cheia de noites mal dormidas. O motivo? Porque deixo para trás memórias boas que já apagaram as más, amigos, família, mestres, experiências que jamais teriam sido vividas em outros lugares... Mas volto ao aconchego do país que me fez ser assim, brasileira, cheia de calor no coração, sorriso no rosto e amigos a rodear.
Intercâmbio pode não parecer, mas geralmente vai bem mais além do que filmes americanos e histórias mágicas contadas. Intercâmbio deve sim ser feito, porque uma vez vencido, ele faz nosso mundo interior e exterior crescer de maneira inexplicável.
Sentirei saudades dos jogos de futebol americano, dos treinos de volleyball, natação e atletismo, das festas ao redor das fogueiras, da calça cheia de gelo depois de cair esquiando, dos filmes, viagens para NY, North Carolina, Washington D.C. e Virgínia, das músicas, das tentativas de ensinar português, dos amores, das irmãs, do frio congelante, do ônibus escolar amarelo, dos amigos intercambistas, dos amigos americanos, das tradições, dos micos e dos dias que foram encantados.